Embora já alguns anos tenham passado, continuamos a refletir sobre as mudanças que possam ter surgido após o período da pandemia. Muitos de nós deparamo-nos com mudanças nas pessoas, no dia a dia, nos hábitos, nas rotinas, na forma como se vive e como se encara o que parece estar a acontecer ou prestes a acontecer. Sentimo-lo nas faculdades, no trabalho, no decorrer de amizades antigas, e podemos senti-lo em nós e na forma como encaramos ou sentimos determinadas situações.
Os tempos de pandemia mostraram-nos o quanto podemos ser vulneráveis, nomeadamente quando obrigados a ficar em casa e ver o mundo parar sem que pudéssemos fazer algo e sem que soubéssemos o que se ia suceder. Não sei se está relacionado com medo, com a ansiedade de não saber, de não controlar, não sei as respostas para as perguntas que tantas vezes me vêm à mente, mas acredito que muitas vivências decorrem de modo diferente.
Ainda hoje, não estaremos nós a viver como que numa sala de espera, a aguardar que algo aconteça? Como qualquer ser humano, não gostamos de ser apanhados de surpresa, essa representação é assustadora e por isso continuamos preventivamente nesta espera constante para ver o que acontece. Tentamos não arriscar, viver apenas com certezas, colocando-nos numa posição aparentemente confortável perante cada circunstância. Será isso viver, ou sobreviver? E se nos permitíssemos a arriscar mais, a ir em frente, a sentir mais apesar do medo e das incertezas?
É difícil fugir às notícias e não estar atualizado de tudo o que vai acontecendo no mundo (ainda para mais, com notícias que, por vezes, se apresentam tão catastróficas e de modo permanente), basta entrar nas redes sociais ou abrir algum browser de pesquisa e sem querer estamos a ler as novidades do último momento. Que impacto pode isto estar a ter na nossa mente e no nosso dia a dia? Como nos podemos proteger, emocional e cognitivamente dessa estimulação permanente? De que modo todo este contacto permanente, esta busca constante, direta ou indireta, interfere na nossa vida, desde essa altura em que nos deparámos maiores incertezas e restrições?
Está fora do meu alcance dar alguma sugestão ou recomendação, mas creio que este é um tema que vale a pena pensarmos e refletirmos, para que consigamos encontrar dentro de nós alguma resposta, mesmo que gradualmente, que nos permita viver mais do que sobreviver; arriscar sem certezas; viver hoje, de um modo mais livre do que ontem….
Tomás Jesus
Psicólogo Júnior – Dialógicos