Quem planta assim?
As árvores são umas ingratas. Atiramos a semente à terra, regamos, cuidamos, esperamos e depois... nada. Pelo menos nada que se veja num prazo razoável para um ser humano com lista de tarefas, transportes para apanhar e notificações por responder.
Vivemos rápido (perdoem os leitores por esta frase tão cheia de nada). Queremos o resultado antes do esforço, a sombra antes da raiz, o fruto antes da flor. O mais impulsivo, de sangue nos pulsos e raiva na garganta, acusará logo que é preguiça. Mas mesmo o mais nervoso e apontador vive num mundo que assim funciona, e onde fomos aprendendo a funcionar da mesma forma; um mundo que nos fecha em nós mesmos, bem seguros, deixando do lado de fora o que nos confronta com a angústia e com o desconforto do não saber.
Além da pressa, há o medo de ser o único idiota que ainda acredita, de investir no colectivo e ficar a parecer ingénuo, a pessoa de quem todos se aproveitam, o tolinho, desactualizado, cringe (nas palavras dos colegas da GenZ). Freud chamou-lhe mal-estar; nós chamamos ansiedade social, que agora não dá para grandes coisas. Vendo além da grande etiqueta do medo, reparamos nas letras mais pequenas com a vergonha e a timidez; talvez este seja o resultado de viver sob um permanente olhar dos outros, real ou imaginado, que esbate a fronteira entre estar dentro ou fora da linha, que avalia, regista, arquiva, e recupera com organização cronológica e/ou temática para ajuste de contas. Aprendemos a ensaiar, a calcular o risco de exposição antes de agir, a medir cada gesto, e a projetar os 500 cenários possíveis - paira eternamente nos nossos ecrãs uma borboleta com o aviso de que, seja qual for a ação tomada, esta terá consequências. Creio que muitos pais que outrora se queixavam de filhos impulsivos e rebeldes (filhos esses que saíriam de qualquer gabinete tatuados com Perturbação de Oposição e Desafio) desejariam ter tido os seus filhos hoje, onde a prole consciente e de bom grado escolhe o guião bem estudado, ao impulso. Ao deixar de parte a parte mais impulsiva, e arriscando-me a pegar emprestada parte da palavra e a transformá-la em pulsão de vida, o que sobra é uma versão de nós próprios muito bem-comportada, muito segura, e por consequência ligeiramente vazia, aquilo a que Winnicott chamaria um falso self: construído para sobreviver ao olhar dos outros, sempre à custa da espontaneidade e da capacidade de tolerar o não saber.
Nesse contexto, a generosidade sem retorno, como o gesto que ninguém vai notar, o cuidado que não tem certificado nem garante créditos, o Return to Investment que pode nunca ser nosso, torna-se não só improvável como ligeiramente suspeita. Quem planta assim? E porquê?
Carlota Rocha e Cunha
Psicóloga Júnior – Dialógicos
Sugestões de Leitura
- O Mal-Estar na Civilização, de Sigmund Freud
- A Sociedade do Cansaço e A Expulsão do Outro, de Byung-Chul Han
- Não Sinto Nada, de Liv Strömquist