A explicação como ponto de chegada
Nos relatos que vamos tendo nas redes sociais e no contacto com colegas, percebemos que cada vez mais pessoas chegam à primeira consulta com uma explicação e um diagnóstico fechados. Pessoas que têm vinculação ansiosa porque sofreram trauma na infância, filhos de mães narcisistas, sobreviventes de relações tóxicas. Muitas vezes a aprendizagem é feita no Instagram e no TikTok, em conteúdos às vezes feitos por psicólogos, às vezes por pessoas fora da área da saúde.
Este despertar e interesse pela saúde mental é de saudar. Há quem passe anos (uma vida?) a ouvir que está a exagerar, e quando a internet dá um nome ao que vive, a pessoa sente-se validada e levada a sério. Ferenczi, um psicanalista também ele injustiçado pelos seus pares, escreveu, em 1933, que o trauma de uma criança se agrava quando os adultos à volta fazem de conta que nada aconteceu. Ouvir o relato, reconhecer o que se passou, faz parte do trabalho terapêutico.
O problema é quando nos encerramos na explicação, como ponto de chegada, sem qualquer possibilidade de seguir por outro caminho. Hoje, além do ganho secundário da própria doença, vem o ganho secundário da explicação do sintoma, da nomenclatura da doença. Acalma e organiza, não exige nada: se faço isto, faço-o por causa da minha mãe; a responsabilidade fica com ela, e eu posso continuar igual, pois sou assim (e permaneço assim) por causa do que fizeram comigo.
Já em 1925 Freud perguntava-se se seríamos responsáveis pelo conteúdo imoral dos nossos sonhos; percebeu que sim, pois estes são produzidos através de material nosso. Lacan foi mais longe e disse que somos sempre responsáveis pela nossa posição de sujeito, ou seja, pelo lugar onde nos pomos em relação ao que nos aconteceu. Nenhum dos dois autores falava de culpa; a culpa procura alguém a quem atribuir o que aconteceu, e a responsabilidade tem a ver com o que se faz a partir daí. Uma mãe pode ter estado realmente pouco presente, e isso não deixa de ter consequências. Mas é a filha adulta quem exige do namorado garantias constantes de que não a abandonará, ou quem põe fim às relações antes que o outro o faça.
Perceber a origem de um padrão não chega para o mudar. Freud já reconhecia, no início do século XX, que não basta explicar a alguém porque reage de determinada maneira: é preciso dar-lhe tempo para reconhecer essas reações e trabalhar as resistências que as mantêm. Chamou a este processo "elaboração", e é também por isso que, por vezes, uma pessoa volta à mesma história sessão após sessão, chegando a pedir desculpa por estar sempre a falar do mesmo. Voltar ao mesmo assunto faz parte do processo: nem sempre conseguimos compreender ou transformar algo à primeira, e é precisamente nesse regresso, ao longo de semanas ou meses, que o trabalho psicológico acontece. É necessário recordar, repetir e elaborar.
Do lado dos psicólogos, uma formulação de caso bem construída pode dar a sensação de que o trabalho está feito: identificou-se um padrão, encontrou-se uma origem, tudo parece fazer sentido. É fácil devolver à pessoa a explicação que já trazia, agora em linguagem técnica, e confundir esse reconhecimento com uma mudança. A pessoa sente-se compreendida, o terapeuta sente que compreendeu; mas, se nada de novo aconteceu, talvez só tenham encontrado uma forma mais elaborada de dizer o que já sabiam: o trabalho fica no intelecto e não chega ao afeto.
O trabalho começa verdadeiramente quando a explicação deixa de chegar, quando a pessoa volta ao mesmo assunto sem perceber porquê e quando não sabe o que dizer a seguir. É aí que pode emergir o que a explicação mantinha fora de campo, a ocupar demasiado espaço de vista, e o trabalho deixa de ser só sobre a história para passar a incluir o que a pessoa sente enquanto a conta, também na relação com quem a ouve.
Carlota Rocha e Cunha
Psicóloga Júnior – Dialógicos
(Rubrica – Ponto de Reflexão… - Outubro 2026)