A tarefa do descanso
O que é que fazem para descansar, por puro prazer? Rimo-nos da surpresa da pergunta, com aquele riso que serve para sair depressa de um sítio apertado. O treino de anos, o de perguntar aos outros como vivem e o que lhes faz bem, posto à prova numa pergunta simples. Como nos saímos?
A resposta já estava pronta na cabeça, bem-composta, com argumentos que se podem dizer em voz alta sem corar; com os holofotes apontados, seria um escancarado auto-engano. Já dizia o António, que só estou bem onde não estou, e passo grande parte do tempo a pensar no que tenho e poderia estar a fazer e não estou. E quando se para? Instala-se uma inquietação difusa, uma sensação de estar a faltar a qualquer coisa. Lacan é o meu pastor: a falta não me faltará. E lá aparecem os consultores Culpa & Stress que decretam que o descanso não está a ser feito como deve ser - o descanso também tem, ao que parece, um workflow recomendado e um modo correcto de execução.
Vejo variações disto todos os dias, dentro e fora do consultório. Pessoas que não param, com a agenda cheia a servir de álibi; pessoas que chegam a dizer que não dormem, que andam irritadas, cansadas, tristes. Pessoas que estranhariam se alguém lhes dissesse que tudo aquilo são várias culpas a conversar, numa língua estrangeira. Por minha culpa, minha tão grande culpa, a mão a bater no peito no lugar do coração. Peca-se por atos e por omissões - e o descanso, bem vistas as coisas, acaba por ser mais uma. O resto os sintomas vão confessando.
Será que tenho direito a descansar? E para que quero descansar? Posso descansar agora? Em algum momento, o descanso passou a precisar de finalidade. Descansa-se para recuperar, para render mais, para voltar inteiro à segunda-feira; corre-se pela saúde, lê-se para aprender, vê-se uma série para desligar… e desligar para quê, senão para voltar a ligar? O prazer agora vem em formato EuroPass, e até a pausa foi absorvida em mais um ponto do currículo (as pausas querem-se sabáticas e produtivas). O prazer de tocar em relva passa a ser vendido em aplicações de meditação com sequências de dias cumpridos, métricas de sono, listas do que fazer para não fazer nada. Até para se ser rebelde é preciso riscar as tarefas da lista, sob pena de não cumprir as metas da avaliação de desempenho incluída - serei suficientemente rebelde? E rebelde como é suposto ser?
Em 1877, Robert Louis Stevenson sentiu necessidade de escrever uma apologia do ócio. Stevenson desconfiava da azáfama permanente; via na ocupação extrema um sinal de vitalidade em risco, de quem não sabe estar vivo de outra maneira. Cento e cinquenta anos depois, a desconfiança mantém-se actual, com a diferença das modas que a vestem. Winnicott, por seu lado, falava da capacidade de estar só como uma aquisição, uma coisa que se constrói cedo e na presença de alguém; e levava o brincar muito a sério, precisamente porque o brincar não serve para nada. Obrigado a servir, deixa de o ser.
Não tenho solução para oferecer, e gostaria de apelar para que desconfiassem de mim se tivesse - primeiro porque qualquer receita de descanso correcto seria apenas mais uma entrada na lista de tarefas, segundo porque quem sou eu para dar algum conselho, e terceiro, se o conselho fosse bom não seria oferecido. Quero passar a pergunta para esse lado, o de quem me lê: o que é que faz para descansar, por puro prazer? E, já agora - esta leitura, foi obrigação, fuga ou prazer?
Sugestões de Leitura
- Apologia do Ócio, de Robert Louis Stevenson
- O Brincar e a Realidade, de D. W. Winnicott
- O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue
Carlota Rocha e Cunha
Psicóloga Júnior – Dialógicos
(Rubrica – Ponto de Reflexão… - Junho 2026)