Férias e família. Descanso ou desafio?
Com o chegar dos meses de verão muitos casais e famílias começam a pensar num tema: as férias!
As férias são frequentemente apresentadas como o momento ideal para descansar, aproveitar em família e fortalecer a relação de casal. Não ter planos, não ter horários, fazer atividades que dão prazer, ir a sítios que trazem bem-estar, eventualmente viajar... Mas será que as férias são sempre assim?
Para muitos casais, as férias trazem algo inesperado: mais discussões. E isso não acontece necessariamente porque a relação esteja pior. Durante o ano, a rotina mantém-nos ocupados. Entre trabalho, filhos e responsabilidades, há pouco tempo para parar e pensar no que está a acontecer e para pensar se estamos satisfeitos com o rumo da nossa vida. Nas férias, pelo contrário, passamos mais tempo juntos, tomamos mais decisões em conjunto e temos menos distrações para esconder aquilo que nos incomoda.
Por vezes, aquilo que parece uma discussão sobre o destino das férias, os horários das refeições ou a organização dos dias é, na verdade, uma conversa mais profunda que ainda não aconteceu.
Nas consultas de terapia de casal, é comum ouvir casais dizerem: "Nem percebemos o que aconteceu, mas passámos as férias quase sempre a discutir." Curiosamente, muitas dessas discussões não são verdadeiramente sobre as férias. São sobre aquilo que as férias acabam por revelar: expectativas diferentes, cansaço acumulado, necessidades que ficaram por dizer ou a dificuldade em encontrar espaço para o casal.
Por vezes, no centro destas dificuldades estão expectativas muito diferentes sobre o que deveriam ser as férias. Um quer aproveitar para estar mais tempo a dois e recuperar a ligação e a intimidade; o outro sente necessidade de descansar sozinho, de ter algum espaço pessoal, ouvir a sua música ou simplesmente ler livros. Há ainda quem idealize férias em família alargada, incluindo filhos, sogras ou outros elementos importantes da família, enquanto o outro sente que isso tira espaço ao casal ou aumenta a tensão. Estas diferenças não são, por si só, um problema. Tornam-se difíceis quando não são faladas, quando são assumidas como evidentes ou quando cada um espera que o outro “adivinhe” o que é o descanso ideal.
Talvez as férias não criem problemas. Talvez apenas lhes deem espaço para eles aparecerem.
Por isso, mais importante do que o destino ideal, o hotel de sonho ou a atividade desejada, talvez valha a pena fazer uma pergunta diferente: quando temos finalmente tempo para estar juntos, o que é que a nossa relação nos mostra? Estamos satisfeitos com a qualidade do tempo que partilhamos? E, quando estas férias terminarem, do que gostaríamos realmente de nos lembrar?
Mariana Cardoso
Terapeuta Familiar e de Casal