A solidão, muitas vezes, não grita. Aparece sorrateira nos dias longos, nas noites em que o telemóvel não toca, nos fins-de-semana que parecem mais vazios do que os outros. Por norma, percecionamo-la como aquela que vem em força, quando vemos uma notícia de alguém mais velho a falecer sozinho, sem ninguém por perto. Mas, e se a pior solidão de todas for precisamente aquela que sentimos - sem querer sentir -, quando estamos rodeados de pessoas?
Desde cedo nos habituam à companhia: da família, dos amigos, da escola, dos grupos. Aprendemos a estar com os outros, mas raramente nos ensinam a estar connosco. E quando a vida abranda, quando tudo silencia, ficamos só com o que somos. E se, nesse silêncio, descobrimos que talvez não gostamos assim tanto de nós?
A solidão dos dias adultos não tem, muitas vezes, o dramatismo que imaginámos. Tem antes uma forma discreta de existir: é estar num dia feliz e, mesmo assim, sentir-se de fora. É o ruído a esconder o que evitamos pensar. Só na eventualidade de aprendermos a estar sós - e não sozinhos - é que conseguiremos, enfim, estar entre os outros sem nos sentirmos em falta de nós.
Talvez seja aqui que a solidão comece a transformar-se noutra coisa. Quando deixamos de a ver como castigo e começamos a habitá-la com curiosidade, ela muda de nome. Já não é ausência - é presença. Solitude. E, aos poucos, deixa de doer. Passa a ser o lugar onde nos ouvimos com nitidez, onde não precisamos de plateia para existir. Onde aprendemos a fazer da nossa companhia uma casa, em vez de uma espera.
E então percebemos que a solidão também ensina. Que há uma diferença entre estar só e sentir-se só. Que a nossa presença pode ser, aos poucos, um lugar seguro. Talvez, quem sabe, a solidão não seja o fim de nada - mas o início de um reencontro, onde nasça, devagar, o sossego da solitude.
INÊS GRIFF
Psicóloga Júnior - Dialógicos
Texto integrado na Rúbrica Ver.Sentir.Reflectir - Julho 2025